segunda-feira, 16 de maio de 2011

MANIFESTEÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓLOGOS-APGCE

Prezados(as) Associados(as),

Abaixo, meu comentário enviado à coluna "VAIVEM" do DN. Aqueles que puderem comentar também, que o façam no site do DN.

Sds.

Britto



Fortaleza, 16 de maio de 2011

Sr. José Maria Melo,

Como corriqueiramente vemos na mídia, inúmeras notícias são dadas sem qualquer conhecimento de causa, de modo preconceituoso ou até mesmo irresponsável. Uma pena. Mas fazermos o quê? Pelo menos nos manifestar. Neste caso do título em sua coluna de 14/maio no jornal DN, “Geólogo à frente do DNIT, não!”, não foi diferente. Acabo de chegar do campo e, obviamente, não estou estarrecido com o que li ao ser avisado por vários colegas e comprovando o que nosso colega José Alberto, competente geólogo do Serviço Geológico do Brasil/CPRM, observou: “Essa manchete é no mínimo irresponsável” (na íntegra abaixo). Portanto gostaria de comentar, civilizadamente, o que o colega Zé frisou.

Se formos analisar as atribuições dos Geólogos e Engenheiros, neste caso os Civis, veremos muitas relações intrínsecas e constataremos que a construção civil depende da e começa na Geologia, especificamente, nos estudos de topografia, geologia de engenharia, geofísica e hidrogeologia. Não me estenderei nesta seara, pois não quero deixar de ser compreendido, além do que, este assunto demanda alguns dias de bate-papo. O fato é que as obras inerentes ao DNIT (estradas, pontes, arrimos, entre outras) para serem duradouras dependem de três fatores: adequado conhecimento geológico, projeto de engenharia bem embasado e elaborado e de execução muito bem feita. Para isso, como em qualquer parte do mundo, precisa-se de dinheiro e de bons e sérios profissionais. Isso é o que não falta por aqui. As questões que levaram o DNIT cearense ao estágio de denúncias, investigações, prisões e desprestígio tem suas causas na falta de ética e moral, na má gestão pública, na politicagem barata, nos interesses particulares, na ganância, na irresponsabilidade, na incompetência, na falta de planejamento adequado, no descaso dos governos, etc., como a própria mídia divulga e que podemos constatar no dia-a-dia. Todo político cearense sabe que os problemas nas ruas de Fortaleza e nas “estradas” acabadas que temos no Ceará não vêm de hoje. Por quê agora reclamam histericamente?

Há 30 anos que vejo, em minhas andanças pelo interior, as várias CEs (DER) e BRs (DNIT) receberem, quase que anualmente, intervenções paliativas e que não atacam verdadeiramente os problemas. Em Fortaleza, os problemas são os mesmos de 40 anos atrás. Por quê será? Será que foram os engenheiros que até hoje assumiram os órgãos responsáveis? Será que é a incompetência dos políticos cearenses para nomear profissionais competentes e comprometidos com a eficiência e a causa pública? Serão os apadrinhados de políticos analfabetos e inescrupulosos? Será a falta de estudos específicos? Serão os projetos mal embasados e elaborados? Será que são as construtoras contratadas incapacitadas? Serão empresários corruptos e ávidos por contratos? Serão os editais de licitações mal feitos? Serão os orçamentos inexequíveis e que demandam os famosos aditivos de contrato? Serão as tecnologias empregadas ou não empregadas? Será que a fiscalização das obras tem algo a ver? Será a corrupção desatada e impregnada? Será a falta de preocupação com o usuário e a população? Estará a população acomodada com tantos desmandos? Será a sigla do partido governante? Estará a mídia medrosa e pouco exigente com os políticos mandantes? Será a falta dos caras-pintadas? Será a imperiosa impunidade? Será a parte podre e obscura do capitalismo? Será a mediocridade de nossa justiça? Ou será tudo isto junto? Só para exemplificar, recentemente algumas ruas de Fortaleza foram rasgadas pelo projeto TRANSFOR e reconstruídas. Pois é, não durou nem um mês e já existem buracos e abatimentos de solo nestes trechos. Alegaram que o “buraco afundou” por falta de drenagem. Caramba! Buraco não afunda. É a pura falta de responsabilidade dos gestores com as obras e com o dinheiro público. É sacanear com os moradores da cidade. Outro exemplo que posso lhe dar vem das tragédias anunciadas no Rio de Janeiro. Depois daquela catástrofe, os governantes correram atrás dos geólogos para mapearem as áreas de risco. Lá, alguns trabalhos foram feitos, mas foi mesmo que nada. Já tem gente voltando para os morros e os políticos esqueceram o caos. Ano que vem será a mesma coisa. E por aí vão os exemplos. Assim caminha o Brasil tupiniquim doente, sem educação, falando e escrevendo errado, sem opções políticas, sem obras bem feitas, dominado por projetos políticos e sociais solúveis, corruptores e demagogos.

Pois é Sr. José Maria, sem dúvida nenhuma, o conhecimento geológico é fundamental para os projetos rodoviários e tantos outros. Nem foi, nem é, nem será a subentendida formação profissional a causa dos problemas no DNIT ou em vários outros órgãos das administrações públicas federal, estadual e municipais, independente das letrinhas vermelhas ou coloridas dos partidos.

Os bons resultados nas nossas obras de infraestrutura (estradas, drenagens, saneamento, etc.) só ocorrerão se houver a correta aplicação dos conhecimentos da Geologia de Engenharia nos projetos rodoviários, o emprego das boas tecnologias e a correta e ética aplicação do dinheiro do povo. Isto ainda está longe para nós. Mas não podemos desistir. Precisamos continuar cobrando competência dos gestores e dos políticos. A própria mídia deveria intervir neste processo, sem medo de cobrar e mostrando as verdadeiras causas dos problemas. Quero dizer-lhe que temos competentes Geólogos capazes de contribuir para solução definitiva destes problemas. Só é preciso seriedade das pessoas. Do contrário, continuará do mesmo jeito.

Fico por aqui na esperança que o senhor agora possa rever sua posição em sua coluna, reconhecendo e dignificando a importância do conhecimento geológico para o verdadeiro êxito dos projetos de infraestrutura rodoviária e de construção civil como um todo.



Cordialmente

Geól. José Vitoriano de Britto Neto

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