Blog da Associação dos Servidores da SOHIDRA - ASSO, destinado à troca de informações com nossos colegas, colaboradores e população em geral.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
Fortaleza perdeu 90% de cobertura vegetal em 35 anos
O que restou de vegetação nativa sofre com podas muitas vezes desnecessárias e falta de plano de arborização
Segundo o Inventário Ambiental de Fortaleza nos anos 1968 e 2003, a cidade perdeu cerca de 90% de sua cobertura natural. Isso coloca o fortalezense em contexto de baixa qualidade de vida, pois existe menos de 4 m2 de área verde por habitante na cidade. Em 1968 a cidade tinha 66% de áreas verdes. Em 2003, o Município contava apenas com 7% de vegetação, representando uma perda de quase 90%.
Quem mora em Fortaleza sente na pele o que é viver numa cidade cheia de problemas ambientais. As agressões tanto à natureza quanto aos moradores da cidade parecem não ter fim - e nem alternativas. Na verdade, as soluções existem, apontam especialistas. E todas começam no mesmo lugar: numa mudança na forma de encarar os problemas por parte do Poder Público. Fato que está longe de acontecer. Promessas existem, mas ficam no vazio do plano das ideias, nada mais.
Sem um plano de arborização, aponta a arquiteta Mariana Reynaldo, a cidade tem perdido gradativamente os espaços verdes. As vias estão cada dia mais desnudas devido o corte de árvores de forma indiscriminada ou a queda de algumas espécies. "Isso sem falar de verdadeiros absurdos contra o meio ambiente como a destruição das raízes para a construção de canteiros ou a passagem de tubulação", aponta ela.
O fato denunciado pela arquiteta foi constatado pela reportagem do Diário do Nordeste. Em plena Avenida Jovita Feitosa, numa obra do Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor), operários cortaram as raízes de árvores para fazer o canteiro central. A direção do Programa não se pronunciou até o fechamento dessa edição.
A questão, aponta o engenheiro agrônomo Pedro Henrique Albuquerque, é que Fortaleza se transformou numa cidade de concreto. Na média, o município possui menos de quatro metros quadrados de área verde por habitante, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) define um mínimo de 12 m²/hab para uma boa qualidade de vida. A cidade de Maringá (Paraná), considerada referência nacional em meio ambiente sustentável, possui 13,6 m2 de área verde por habitante.
Plano
A Secretaria de Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam) promete implantar um Plano de Arborização para "logo". Promessa contestada pela bióloga Joana Marinho. "Faz tempo que ouço falar sobre isso e entra ano e sai ano e fica por aí mesmo".
Para moradores do entorno de avenidas como a Carapinima, como a estudante Érica Araújo, não dá mais para esperar tanto tempo. "Aqui é um verdadeiro deserto do Saara sem um pé de árvore". Pelo visto, a situação tende a perdurar. A Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb) já avisou que ali, devido ao Metrô de Fortaleza, tudo ficará como está: só asfalto.
Informação essa que não surpreende especialistas como o engenheiro agrônomo Antonio Tavares, professor da Universidade Federal de Parnaíba. De acordo com ele, "parece que estamos andando na contramão da história". Como a cidade não foi planejada levando em conta a arborização urbana, aponta, existem poucos espaços disponíveis para receber árvores.
Além disso, a vegetação urbana de Fortaleza é tão irrisória que pouco pode contribuir para a melhoria do ambiente térmico da cidade. Para o professor Tavares, em seu blog "Árvores do Tavares", o problema ambiental mais grave de Fortaleza consiste tanto na falta de vegetação, quanto no manejo inadequado das poucas árvores que restam, que consiste em podas abusivas. Os canteiros criaram um problema adicional. Eles são excessivamente estreitos e impermeabilizados. As raízes precisam de oxigênio e água para se desenvolverem. O aumento da impermeabilização aumenta também os riscos de enchentes.
O vereador João Alfredo, calcula que o nosso déficit seja de três mil hectares de área verde. "Além de não termos uma política de preservação nem de arborização, muitas vezes, se autoriza, como no caso do bosque da Aldeota, a supressão de todas as árvores do terreno para empreendimentos imobiliários", aponta o parlamentar.
Nos últimos seis anos, apenas duas unidades de conservação foram criadas em Fortaleza: uma pela Prefeitura, na Sabiaguaba, outra pela Câmara, nas Dunas do Cocó, por autoria nossa. "Em suma, falta à cidade uma política pública ambiental". Segundo ele, a tendência mundial consiste em adotar modelos de planejamento e gestão urbana que seguem premissas ecológicas. "A cidade não é mais considerada como uma antítese da natureza e sim parte dela", assevera.
Sensação térmica tem razão de ser
A ocupação desordenada do solo, a ausência de arborização, a retirada da cobertura vegetal de maneira extensiva têm reflexos no clima e consequências diretas na qualidade de vida. O alerta da engenheira agrônoma, Célia Regina do Amaral, é compartilhada pelo meteorologista José Maria Brabo, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
Segundo Brabo, a amplitude térmica da cidade - a diferença entre as temperaturas máximas e mínimas - vem diminuindo gradativamente. Atualmente na quadra chuvosa, explica ele, a temperatura de Fortaleza fica entre 27º a 28º. A partir de julho, já em tempo seco, o termômetro mede entre 29º e 30º.
Segundo ele, as variáveis que atuam para a sensação térmica mais quente ou fria são a umidade relativa do ar e os ventos. Quanto maior a umidade, maior o calor. Os ventos são responsáveis por atenuar esse quentura toda e eles estão sendo "barrados" tanto pela verticalização quanto pela impermeabilização do solo.
Onde existe muito asfalto e pouca arborização o desconforto térmico piora. Isso procede cientificamente, explica Brabo. É exatamente em decorrência da diminuição dos ventos e sua velocidade. Ele lembra que há uns sete anos a brisa vinha do oceano a uma velocidade média de 12 km por hora. Hoje, devido aos prédios, asfalto e falta de árvores, consegue chegar a 10km por hora. Indignada com a situação, a engenheira agrônoma Célia Regina aponta que os gestores de Fortaleza parecem ignorar que toda tomada de decisão urbana resulta em impactos ambientais para a cidade, e uma delas é o aumento sensação térmica.
Emlurb
O responsável pela poda das árvores da Empresa de Limpeza de Limpeza e Urbanização (Emlurb), Franzé Sidrão, reconhece que é preciso fazer mais do para salvar as áreas verdes. Por mês, a empresa corta, em média, 80 árvores em risco e promove a poda de 1.500.
A poda também é alvo de questionamentos. Sidrião rebate a crítica afirmando que todo o corte é realizado depois que um laudo é feito por técnicos do Distrito Ambiental de cada Regional. E diz que para cada árvore cortada, duas devem ser plantadas na cidade.
ENTREVISTA
*Fernanda Rocha
Fortaleza se expande conservando situações incompatíveis
Como a Srª avalia a falta de arborização em Fortaleza?
Trata-se de uma questão cultural: a cidade cresceu ignorando seu sitio original, negando as potencialidades existentes, pautando-se em padrões e modelos exógenos, que priorizavam aspectos à época inovadores (automóvel, indústria, etc). Além disto, vem solenemente desprezando diretrizes previstas em seus instrumentos legais. Desta forma a cidade se expande conservando situações incompatíveis com novas realidades.
Quais as espécies mais adequadas para serem plantadas em canteiros centrais e calçadas ?
Nos canteiros centrais, pode-se pensar em árvores de maior porte e até frutíferas. Já em calçadas, deve-se adequar o porte da espécie ao espaço disponível de modo a não reduzir a mobilidade.
Existe incompatibilidade entre iluminação pública e arborização em Fortaleza?
Na maioria das vezes, quando do plantio, as árvores ainda são jovens e se adaptam às condições existentes, mas com o passar do tempo, passam a necessitar de podas radicais, podendo até mesmo ter reduzido seu tempo de vida.
*Arquiteta e Urbanista e professora da Unifor - viva.arte@uol.com.br
LEDA GONÇALVES
REPÓRTER
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Diario do Nordeste
A caça-vírus. Rita Nogueira:

Clarissa Thomé - O Estado de S.Paulo
ENTREVISTA - Rita Nogueira, médica especializada em virologia
Tasso Marcelo/AE
A caça-vírus. Rita Nogueira: 'O segredo da identificação do vírus é a vigilância epidemiológica'
Em março de 1986, Rita Nogueira, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, fez um curso sobre como identificar o vírus da dengue em Caracas, na Venezuela. Vinte dias depois, de volta ao laboratório, deparou-se com nove amostras de sangue de pacientes de Nova Iguaçu, todas positivas. Era a reentrada do vírus tipo 1 no Brasil e o início da primeira grande epidemia nacional.
De lá para cá, ela foi a responsável por identificar os vírus 2 e 3, quando chegaram ao País. E, no mês passado, a equipe que coordena descobriu o tipo 4 em duas irmãs de Niterói - os primeiros casos do Sudeste.
Nessa entrevista ao Estado, a pesquisadora, que coordena o Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), fala sobre como as manifestações da doença mudaram ao longo de 25 anos. Curiosamente, ela nunca teve a doença. "Faço a minha parte. Em epidemia, só ando de meia, calça comprida e uso repelente", ensina.
A chegada do vírus 4 é sinônimo de uma epidemia no próximo verão?
Não é a primeira vez que o vírus da dengue 4 chega ao País. Em 1981, ele entrou em Roraima. E naquela época circulou com o da dengue tipo 1. Foram notificados 12 mil casos em Boa Vista. Ninguém pensou logo em dengue, a preocupação era que fosse rubéola. Mas foi muito localizado e não teve grandes proporções - e o dengue 4 desapareceu por 30 anos. Epidemia não é matemática. São vários fatores. Recentemente voltamos a ter a circulação do dengue 1, que foi um vírus que se implantou muito bem na primeira epidemia. Se essa característica se mantém, o que se espera é que, talvez, não tenha em grandes proporções (uma epidemia de dengue 4).
Esse vírus estava circulando havia algum tempo em países da América do Sul. Ele tem dificuldade de se adaptar ao Brasil?
O que controla esse fator de disseminação varia muito. Enquanto o dengue 4 estava nos outros países, no Brasil ocorriam muitas epidemias. Talvez você não tenha o ambiente propício para que se implante ao mesmo tempo vários sorotipos. Uma população que tem anticorpos com atividade cruzada com outros sorotipos de alguma forma vai bloqueando a entrada de outros vírus. É possível que as epidemias que ocorreram no País tenham impedido a entrada do dengue 4.
Hoje há muitas formas hemorrágicas. Por quê?
As características epidemiológicas eram muito diferentes. Em 1986, o Brasil teve o que se chamava epidemia em solo virgem. Toda a população era suscetível. A epidemia foi por vírus tipo 1 e tivemos apenas um caso fatal, bem caracterizado. Quando entrou o dengue 2, mudou um pouco de figura. O que a gente conhece da epidemiologia é que, quando se tem infecções sequenciais (por diferentes vírus), o risco de se ter a forma mais grave é maior. Mas, na realidade, as famílias que estão circulando no Brasil têm potencial de virulência reconhecida.
Esse vírus 2 é de origem asiática. Já se sabia que tinha potencial de levar a formas graves. O dengue 3, quando entrou, também provocou preocupação. Ele sumiu das Américas em 1977 e foi reintroduzido em 1994. E se viu que o dengue 3 teve impacto grande no País - em 2002, correspondia a 60%, 70% de todos os casos nas Américas.
O que se pode dizer hoje da epidemia de dengue no Brasil? Hoje o Brasil tem um caráter hiperendêmico, com quatro sorotipos circulando - que era uma característica do Sudeste Asiático. O padrão da doença lá é mais em criança. A população mais velha já foi infectada. As crianças vão fazendo infecções sequenciais e isso leva a casos mais graves. É o que ocorre hoje aqui: dengue em crianças, casos graves em pessoas com menos de 15 anos. O padrão está mudando. Até 2007, as crianças não representavam porcentual muito alto de casos graves. Na última epidemia, passou de 30%.
Como é ser a memória da dengue no Brasil?
Dá mais vontade de trabalhar. O segredo da identificação do vírus é a vigilância epidemiológica. É preciso estudar muito o perfil da dengue em criança, os fatores de risco dos casos mais graves. Também pesquisamos a repercussão do vírus em gestantes e representações atípicas da dengue, como comprometimento neurológico e hepatites
Imposto de Exportação-Celso Ming

Por enquanto, são apenas estudos, dizem. Mas grandes erros também começam dessa maneira, com estudos.
A proposta é impor um confisco (Imposto de Exportação) sobre as vendas externas de minério de ferro. Nesta terça-feira, o Ministério da Fazenda desmentiu iniciativas desse tipo. Mas não foi jornalista que inventou a notícia.
Afora a manobra intimidatória sobre a Vale, maior exportador de minério de ferro do mundo, a suposta estratégia por trás dessa ideia é desestimular exportações de um produto com baixo valor agregado. O pressuposto é o de que é preciso vendê-lo já transformado para garantir empregos locais; é ampliar a siderurgia e exportar placas e laminados, e não apenas o minério.
O governo Lula pretendia algo semelhante com a Petrobrás. Em vez de limitar-se a produzir petróleo e gás, deveria investir em refinarias e exportar derivados: gasolina, óleo diesel, querosene, nafta. Não foi considerado que, diante da ociosidade mundial do setor de refino, pode ser melhor concentrar investimentos na produção de petróleo e gás.
Tende a ser grave erro obrigar um setor a desviar-se do seu foco de negócio. Uma mineradora eficiente pode tornar-se medíocre produtora de aço. E não é tão certo que se garantam mais empregos ampliando o parque siderúrgico. Em janeiro, em seu discurso sobre o Estado da Nação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, observava que siderúrgicas, que antes (não explicitou datas) tinham mil trabalhadores, hoje não empregam mais do que cem.
Haverá enormes riscos envolvidos se eventualmente prevalecer essa proposta de taxar exportações de bens primários. O primeiro será a interferência política nos negócios das empresas brasileiras do setor privado. Isso tende a injetar irracionalidades difíceis de reverter. O segundo, o de arcar depois com encalhes. Em 2010, por exemplo, a indústria siderúrgica mundial operou com uma capacidade ociosa de 33%. E, em terceiro lugar, não é nem um pouco evidente que o investimento na produção de bens mais elaborados tenha mais retorno e liquidez do que o proporcionado pela produção de matérias-primas. Hoje, o produto escasso (e estratégico) deixou de ser o industrializado e passaram a ser as commodities. Quase nenhum produto industrializado pode ser considerado ativo financeiro. As commodities todas são. E isso conta muito na ordem das coisas.
O maior risco de impor um confisco sobre as exportações de minérios seria o de que, mais à frente, fosse estendido para todas as matérias-primas. O argumento poderia ser a necessidade de agregar valor, mas o verdadeiro objetivo poderia ser apenas arrecadar mais. Esse é, aliás, o sistema argentino, que funciona à base de confiscos (retenciones) sobre as exportações tanto de produtos primários como de acabados. Importante resultado é o desestímulo aos investimentos.
Enfim, não está claro se esses estudos e essa tentativa do governo fazem parte do mesmo projeto de intimidação da diretoria da Vale; se integram um jogo mais amplo cujo objetivo é aumentar a receita; se configuram mais um passo na direção do aparelhamento também do setor privado por grupos que estão no poder; ou se são um pouco de tudo isso
Apesar de promessa de Dilma, governo corta investimentos
BRASÍLIA - Encerrado o primeiro trimestre do mandato da presidente Dilma Rousseff, o retrato das contas públicas contraria o discurso feito por ela desde a época da campanha eleitoral. Os gastos com investimentos, que deveriam ser preservados dos cortes, caíram. Já as despesas com salários, custeio da máquina pública e da rotina do governo subiram. É justo o oposto do pregado no discurso oficial.
Com pessoal e custeio, o governo gastou R$ 10 bilhões a mais no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período do ano passado. Se forem incluídos os gastos com juros, o aumento chega a R$ 13,2 bilhões. É praticamente um quarto do corte de R$ 50 bilhões feito no Orçamento deste ano e é dinheiro suficiente para bancar quase um ano do programa Bolsa Família. No fim do mês passado, o Estado mostrou que haviam aumentado até gastos com diárias e passagens, supostos alvos de cortes.
Já em investimentos, os gastos caíram pouco mais de R$ 300 milhões na comparação com 2010. Os dados foram lançados no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), que registra gastos federais, e foram pesquisados pela ONG Contas Abertas.
O governo diz que está fazendo outra coisa. "Estamos cortando o custeio administrativo, não os investimentos", disse Dilma Rousseff em março, na Bahia, ao inaugurar uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Dos R$ 8,2 bilhões despendidos em investimentos nos primeiros três meses deste ano, R$ 7,9 bilhões se referem a pagamentos de contas herdadas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os programas incluídos no Orçamento de 2011 propriamente dito, aquele que seria preservado de cortes, praticamente não saíram do lugar.
Nos primeiros 90 dias de governo, apenas R$ 306 milhões foram pagos até o momento, o que significa que o projeto foi realizado e o governo quitou a conta. O volume de investimentos previstos para este ano, porém, chega a R$ 63,7 bilhões. Desse montante, apenas 6,19% passaram pela primeira etapa burocrática do gasto público, o chamado "empenho", que é feito quando o governo compromete o dinheiro com o pagamento de alguma obra ou serviço ainda em execução.
De acordo com as informações lançadas até a última quinta-feira no Siafi, os ministérios dos Transportes Educação e Defesa foram os que mais pagaram investimentos, sobretudo os contratados antes da posse da presidente. Mas o dinheiro foi consumido quase integralmente por despesas já contratadas e deixadas pelo governo Lula.
No mesmo período, quatro ministérios não registraram nenhum pagamento de investimentos autorizados pelo Orçamento de 2011. Estão praticamente parados os investimentos dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, Turismo, Cultura e Pesca. O Ministério do Esporte tampouco avançou em novos investimentos. Essas são pastas com grande volume de emendas parlamentares, principal alvo dos cortes. O ministério que mais avançou em investimentos autorizados no ano foi o da Saúde, cujas despesas estão protegidas pela Constituição.
As contas deixadas por Lula ainda vão pressionar os investimentos nos próximos meses de mandato de Dilma Rousseff. Abril começou com contas não quitadas de R$ 47,7 bilhões só nesse tipo de despesa. Parte desses contratos deverá ter o pagamento suspenso, conforme adiantou o Estado no mês passado. A queda nos investimentos ocorre também nas empresas estatais federais. Nos primeiros três meses deste ano, a redução foi de R$ 1,4 bilhão.
Com pessoal e custeio, o governo gastou R$ 10 bilhões a mais no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período do ano passado. Se forem incluídos os gastos com juros, o aumento chega a R$ 13,2 bilhões. É praticamente um quarto do corte de R$ 50 bilhões feito no Orçamento deste ano e é dinheiro suficiente para bancar quase um ano do programa Bolsa Família. No fim do mês passado, o Estado mostrou que haviam aumentado até gastos com diárias e passagens, supostos alvos de cortes.
Já em investimentos, os gastos caíram pouco mais de R$ 300 milhões na comparação com 2010. Os dados foram lançados no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), que registra gastos federais, e foram pesquisados pela ONG Contas Abertas.
O governo diz que está fazendo outra coisa. "Estamos cortando o custeio administrativo, não os investimentos", disse Dilma Rousseff em março, na Bahia, ao inaugurar uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Dos R$ 8,2 bilhões despendidos em investimentos nos primeiros três meses deste ano, R$ 7,9 bilhões se referem a pagamentos de contas herdadas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os programas incluídos no Orçamento de 2011 propriamente dito, aquele que seria preservado de cortes, praticamente não saíram do lugar.
Nos primeiros 90 dias de governo, apenas R$ 306 milhões foram pagos até o momento, o que significa que o projeto foi realizado e o governo quitou a conta. O volume de investimentos previstos para este ano, porém, chega a R$ 63,7 bilhões. Desse montante, apenas 6,19% passaram pela primeira etapa burocrática do gasto público, o chamado "empenho", que é feito quando o governo compromete o dinheiro com o pagamento de alguma obra ou serviço ainda em execução.
De acordo com as informações lançadas até a última quinta-feira no Siafi, os ministérios dos Transportes Educação e Defesa foram os que mais pagaram investimentos, sobretudo os contratados antes da posse da presidente. Mas o dinheiro foi consumido quase integralmente por despesas já contratadas e deixadas pelo governo Lula.
No mesmo período, quatro ministérios não registraram nenhum pagamento de investimentos autorizados pelo Orçamento de 2011. Estão praticamente parados os investimentos dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, Turismo, Cultura e Pesca. O Ministério do Esporte tampouco avançou em novos investimentos. Essas são pastas com grande volume de emendas parlamentares, principal alvo dos cortes. O ministério que mais avançou em investimentos autorizados no ano foi o da Saúde, cujas despesas estão protegidas pela Constituição.
As contas deixadas por Lula ainda vão pressionar os investimentos nos próximos meses de mandato de Dilma Rousseff. Abril começou com contas não quitadas de R$ 47,7 bilhões só nesse tipo de despesa. Parte desses contratos deverá ter o pagamento suspenso, conforme adiantou o Estado no mês passado. A queda nos investimentos ocorre também nas empresas estatais federais. Nos primeiros três meses deste ano, a redução foi de R$ 1,4 bilhão.
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de O estado de S. Paulo,
ESTADÂO,
Marta Salomon
Dicas sobre os investimentos:
Economista dá dicas sobre os investimentos mais adequados ao momento de alta na inflação
02/04/2011 - 11h13
Economia
Daniel Lima
Repórter da Agência Brasil
Brasília – O pequeno poupador deve ter cautela diante do quadro de alta da inflação e deve evitar transferir suas economias para aplicações financeiras que desconhece. O conselho é do especialista em administração financeira, Érico Veras Marques, professor da Faculdade de Economia, Administração Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Para ele, o pequeno aplicador, além de ter cuidado com o dinheiro no banco, deve, diante da inflação em elevação, preocupar-se em fazer pesquisas de preço dos produtos e serviços em busca de ofertas melhores. Ele, porém, avalia que o momento, nem de longe, mesmo com inflação em alta, pode ser comparado com a situação existente antes do Plano Real, quando os índices alcançavam a casa dos dois dígitos.
“Não dá para comparar a inflação do momento com a mesma registrada antes do Plano Real, quando as coisas subiam absurdamente de uma hora para outra”, disse. Por enquanto, acrescentou o professor, estamos discutindo sobre uma meta de inflação estabelecida pelo Banco Central (BC) que, comparada ao que era no passado, não é tão alta.
Na semana passada, o BC indicou que a inflação corrente está em um momento de alta e deve passar dos 6,5% estipulados como teto da meta estabelecida pelo governo. Depois, ela deve retornar para índices mais baixos, fechando o ano em torno de 5,6%, pela projeção da autoridade monetária. O centro da meta é 4,5%, mas existe uma tolerância de 2 pontos percentuais para a meta de inflação, para mais ou para menos.
“A discussão é importante porque os brasileiros devem ficar atentos para não perder o controle disso. Já pelo lado dos investimentos, a situação requer mais cuidado para o pequeno investidor na hora de descobrir qual aplicação paga o melhor rendimento”, afirmou.
Segundo ele, os pequenos investidores não têm muitas alternativas, a não ser a poupança e alguns fundos. Os fundos, porém, cobram taxas de administração para cuidar das aplicações e, dependendo do valor, não compensam porque, no final, o investidor vai receber menos do que deveria.
“Dependendo da taxa de administração de alguns fundos, é melhor deixar o dinheiro na poupança”, afirmou. Segundo o professor da UFC, outra alternativa seria o Tesouro Direto, um tipo de aplicação que permite ao aplicador a compra de títulos do governo federal diretamente do Tesouro Nacional, inclusive pela internet. Dessa forma, ele foge das taxas de administração e paga apenas um pequena taxa de custódia à instituição financeira.
O problema, segundo Marques, é que esse tipo de aplicação requer um pouco mais de conhecimento do mercado financeiro. “O cidadão tem que se cadastrar em um banco, tem que ficar atento ao dia em que tem que vender os títulos e conhecer a diferença entre os títulos. Não é tão comum como operar com a caderneta de poupança”, ressalta.
Caso o poupador tenha como identificar quais são os títulos corrigidos pela inflação vendidos pelo Tesouro Direto, o professor avalia que esses papéis são bons porque acompanham a inflação, mas “sem ganhar nada a mais por isso”.
Quem estiver disposto a correr um pouco mais de risco, a recomendação do professor são os fundos multimercados, que diversificam a aplicação, ou os fundos de ações. Neste último caso, lembra, é para quem tem conhecimento do mercado financeiro e mais especificamente das empresas que estão vendendo as ações. Marques adverte para que o investidor estejam sempre atento à taxa de administração cobrada pelos bancos.
Se a pessoa tem um pouco mais de recursos, a saída, segundo ele, é aplicar em certificados de depósitos bancários (CDBs), títulos vendidos pelos bancos ao público como forma de captar recursos . Para ele, em instituições de médio porte, o retorno da lucratividade desses papéis é muito bom e pode compensar, mas, normalmente, o dinheiro tem que ficar aplicado por um tempo determinado, o que é desvantajoso para quem necessita dos recursos no curto prazo.
Marques pretende, até o final de agosto, ensinar aos servidores da Universidade Federal do Ceará, como administrar bem seu orçamento pessoal por meio do curso de planejamento em educação financeira.
O objetivo é fazer com que as pessoas tenham um padrão de vida adequado à renda. “Não adianta uma pessoa ganhar R$ 10 mil, mas gastar R$ 11 mil, pois passa a ficar endividado”. “Na verdade, informou, queremos discutir o padrão [de vida] presente com a expectativa de vida do futuro. Até porque, se pegarmos os últimos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], nós estamos falando em uma expectativa de vida de 73 anos de idade. Então, gaste menos do que você ganha. Nunca gaste mais do que você ganha”.
Edição: Lana Cristina
02/04/2011 - 11h13
Economia
Daniel Lima
Repórter da Agência Brasil
Brasília – O pequeno poupador deve ter cautela diante do quadro de alta da inflação e deve evitar transferir suas economias para aplicações financeiras que desconhece. O conselho é do especialista em administração financeira, Érico Veras Marques, professor da Faculdade de Economia, Administração Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Para ele, o pequeno aplicador, além de ter cuidado com o dinheiro no banco, deve, diante da inflação em elevação, preocupar-se em fazer pesquisas de preço dos produtos e serviços em busca de ofertas melhores. Ele, porém, avalia que o momento, nem de longe, mesmo com inflação em alta, pode ser comparado com a situação existente antes do Plano Real, quando os índices alcançavam a casa dos dois dígitos.
“Não dá para comparar a inflação do momento com a mesma registrada antes do Plano Real, quando as coisas subiam absurdamente de uma hora para outra”, disse. Por enquanto, acrescentou o professor, estamos discutindo sobre uma meta de inflação estabelecida pelo Banco Central (BC) que, comparada ao que era no passado, não é tão alta.
Na semana passada, o BC indicou que a inflação corrente está em um momento de alta e deve passar dos 6,5% estipulados como teto da meta estabelecida pelo governo. Depois, ela deve retornar para índices mais baixos, fechando o ano em torno de 5,6%, pela projeção da autoridade monetária. O centro da meta é 4,5%, mas existe uma tolerância de 2 pontos percentuais para a meta de inflação, para mais ou para menos.
“A discussão é importante porque os brasileiros devem ficar atentos para não perder o controle disso. Já pelo lado dos investimentos, a situação requer mais cuidado para o pequeno investidor na hora de descobrir qual aplicação paga o melhor rendimento”, afirmou.
Segundo ele, os pequenos investidores não têm muitas alternativas, a não ser a poupança e alguns fundos. Os fundos, porém, cobram taxas de administração para cuidar das aplicações e, dependendo do valor, não compensam porque, no final, o investidor vai receber menos do que deveria.
“Dependendo da taxa de administração de alguns fundos, é melhor deixar o dinheiro na poupança”, afirmou. Segundo o professor da UFC, outra alternativa seria o Tesouro Direto, um tipo de aplicação que permite ao aplicador a compra de títulos do governo federal diretamente do Tesouro Nacional, inclusive pela internet. Dessa forma, ele foge das taxas de administração e paga apenas um pequena taxa de custódia à instituição financeira.
O problema, segundo Marques, é que esse tipo de aplicação requer um pouco mais de conhecimento do mercado financeiro. “O cidadão tem que se cadastrar em um banco, tem que ficar atento ao dia em que tem que vender os títulos e conhecer a diferença entre os títulos. Não é tão comum como operar com a caderneta de poupança”, ressalta.
Caso o poupador tenha como identificar quais são os títulos corrigidos pela inflação vendidos pelo Tesouro Direto, o professor avalia que esses papéis são bons porque acompanham a inflação, mas “sem ganhar nada a mais por isso”.
Quem estiver disposto a correr um pouco mais de risco, a recomendação do professor são os fundos multimercados, que diversificam a aplicação, ou os fundos de ações. Neste último caso, lembra, é para quem tem conhecimento do mercado financeiro e mais especificamente das empresas que estão vendendo as ações. Marques adverte para que o investidor estejam sempre atento à taxa de administração cobrada pelos bancos.
Se a pessoa tem um pouco mais de recursos, a saída, segundo ele, é aplicar em certificados de depósitos bancários (CDBs), títulos vendidos pelos bancos ao público como forma de captar recursos . Para ele, em instituições de médio porte, o retorno da lucratividade desses papéis é muito bom e pode compensar, mas, normalmente, o dinheiro tem que ficar aplicado por um tempo determinado, o que é desvantajoso para quem necessita dos recursos no curto prazo.
Marques pretende, até o final de agosto, ensinar aos servidores da Universidade Federal do Ceará, como administrar bem seu orçamento pessoal por meio do curso de planejamento em educação financeira.
O objetivo é fazer com que as pessoas tenham um padrão de vida adequado à renda. “Não adianta uma pessoa ganhar R$ 10 mil, mas gastar R$ 11 mil, pois passa a ficar endividado”. “Na verdade, informou, queremos discutir o padrão [de vida] presente com a expectativa de vida do futuro. Até porque, se pegarmos os últimos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], nós estamos falando em uma expectativa de vida de 73 anos de idade. Então, gaste menos do que você ganha. Nunca gaste mais do que você ganha”.
Edição: Lana Cristina
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02/04/11,
AGENCIA BRASIL
O amor entrou mudo e saiu calad
O amor entrou mudo e saiu calado Por Xico Sá . 27.03.11 - 16h12
Um casal vive há 20 anos na mais perfeita harmonia, sem trocar uma palavra. Nem um monossílabo, nem um pantim, nem um grunhido, nem um muxoxo, nem um arrulho, apenas o silêncio a lastrear o lindo amor dos pombinhos. Talvez seja a fórmula do sucesso, o Santo Graal dos relacionamentos, a chave do mistério. Assim vivem João e Maria, como aqui batizamos camufladamente a parelha evitando o som e à fúria dos urubus plantonistas.
Meu primo Zé Humberto contou a bela história ali na calçada de Tica e Dison, sábios e queridos tios que convivem com sabedoria e poucas palavras no discreto Sítio das Cobras, no mesmo município de Santana do Cariri adonde reina o casal mais calado do mundo.
João e Maria, meia dúzia de meninos, estão na faixa dos 65 de idade e deixaram de se falar por besteira e capricho. Certo dia, João a procurou, com teimosia e macheza, e Maria recusou-se a fazer os gostos sexuais do marido. Não estava a fim, pronto, queria ficar na dela.
Sem discussões
O cabra voltou a insistir por mais cinco vezes nas semanas seguintes. A católica Maria, cansada de guerras e gravidezes, manteve-se na resistência. Com o orgulho de macho ferido, ele fechou a cara. Em pouquíssimo tempo descobriram o bem que fazia aquele silêncio, passaram a conviver sem discussões ou arengas, estavam a dois passos do paraíso na terra.
Com a economia de palavras, não inventam conflitos, não brigam por miudezas, não ferem e não são feridos com o mal que sai da boca do homem. Meu primo Zé Humberto, que visita aquele lar doce lar semanalmente para a venda de carne em domicílio, assegura: não há casal mais feliz nas redondezas.
Até mesmo quando estão em dúvida se compram um talho de contrafilé ou de costela, por exemplo, eles tocam de ouvido. Num simples olhar espatifam-se as dúvidas sobre o cimento da sala como em uma mágica.
Dias desses, o homem da carne flagrou João morrendo de saudade. Maria estava passeando em São Paulo. Ele morria por dentro de tanta falta. De gozação e chiste, o visitante sugeriu um telefonema, pelo menos umas duas, três unidades de crédito no orelhão da esquina. O marido saudoso até se benzeu para evitar a tentação da proposta.
João aprecia mesmo, na mirada certeira dos seus olhos semi-áridos, é olhar a sua mulher sem que ela perceba. Admirá-la dormindo, por exemplo, a extrema beleza da calada da noite. Fica horas neste exercício, relembrando o tempo em que estragavam o amor com palavras como tapurus que botam a perder as melhores goiabas. João e Maria agoram contemplam a vida, ali nos ares da Chapada do Araripe, como um jovem casal de mãos dadas no silêncio escuro do cinema.
É calando que a gente se entende, diriam João e Maria, os meus personagens reais da semana. Os casais falam demais, intermináveis discussões de relação, as famosas dê-erres. Conviver também é cortar palavras, caro poeta itabirano. Conviver é catar o feijão sobre a mesa, como diria outro João, aquele do verso mais econômico.
Na fachada de todos os lares doces lares deveria ter inscrito, bem no alto, Silêncio!, como aquela velha placa dos hospitais. E quem tiver algo a dizer contra a advertência que fale agora. Ou cale-se para sempre.
Xico Sá é jornalista. Nasceu no Cariri, em 1963, e foi criado no Recife. Atualmente, vive em São Paulo.
Trabalhou por 14 anos no jornal Folha de S.Paulo e já passou pela revista Veja. Aqui no Yahoo!, fala sobre o comportamento dos homens – que interessa sobretudo às mulheres.
Xico escreve sua coluna Modos de Macho & Modinhas de Fêmea todas às segundas-feiras.
Um casal vive há 20 anos na mais perfeita harmonia, sem trocar uma palavra. Nem um monossílabo, nem um pantim, nem um grunhido, nem um muxoxo, nem um arrulho, apenas o silêncio a lastrear o lindo amor dos pombinhos. Talvez seja a fórmula do sucesso, o Santo Graal dos relacionamentos, a chave do mistério. Assim vivem João e Maria, como aqui batizamos camufladamente a parelha evitando o som e à fúria dos urubus plantonistas.
Meu primo Zé Humberto contou a bela história ali na calçada de Tica e Dison, sábios e queridos tios que convivem com sabedoria e poucas palavras no discreto Sítio das Cobras, no mesmo município de Santana do Cariri adonde reina o casal mais calado do mundo.
João e Maria, meia dúzia de meninos, estão na faixa dos 65 de idade e deixaram de se falar por besteira e capricho. Certo dia, João a procurou, com teimosia e macheza, e Maria recusou-se a fazer os gostos sexuais do marido. Não estava a fim, pronto, queria ficar na dela.
Sem discussões
O cabra voltou a insistir por mais cinco vezes nas semanas seguintes. A católica Maria, cansada de guerras e gravidezes, manteve-se na resistência. Com o orgulho de macho ferido, ele fechou a cara. Em pouquíssimo tempo descobriram o bem que fazia aquele silêncio, passaram a conviver sem discussões ou arengas, estavam a dois passos do paraíso na terra.
Com a economia de palavras, não inventam conflitos, não brigam por miudezas, não ferem e não são feridos com o mal que sai da boca do homem. Meu primo Zé Humberto, que visita aquele lar doce lar semanalmente para a venda de carne em domicílio, assegura: não há casal mais feliz nas redondezas.
Até mesmo quando estão em dúvida se compram um talho de contrafilé ou de costela, por exemplo, eles tocam de ouvido. Num simples olhar espatifam-se as dúvidas sobre o cimento da sala como em uma mágica.
Dias desses, o homem da carne flagrou João morrendo de saudade. Maria estava passeando em São Paulo. Ele morria por dentro de tanta falta. De gozação e chiste, o visitante sugeriu um telefonema, pelo menos umas duas, três unidades de crédito no orelhão da esquina. O marido saudoso até se benzeu para evitar a tentação da proposta.
João aprecia mesmo, na mirada certeira dos seus olhos semi-áridos, é olhar a sua mulher sem que ela perceba. Admirá-la dormindo, por exemplo, a extrema beleza da calada da noite. Fica horas neste exercício, relembrando o tempo em que estragavam o amor com palavras como tapurus que botam a perder as melhores goiabas. João e Maria agoram contemplam a vida, ali nos ares da Chapada do Araripe, como um jovem casal de mãos dadas no silêncio escuro do cinema.
É calando que a gente se entende, diriam João e Maria, os meus personagens reais da semana. Os casais falam demais, intermináveis discussões de relação, as famosas dê-erres. Conviver também é cortar palavras, caro poeta itabirano. Conviver é catar o feijão sobre a mesa, como diria outro João, aquele do verso mais econômico.
Na fachada de todos os lares doces lares deveria ter inscrito, bem no alto, Silêncio!, como aquela velha placa dos hospitais. E quem tiver algo a dizer contra a advertência que fale agora. Ou cale-se para sempre.
Xico Sá é jornalista. Nasceu no Cariri, em 1963, e foi criado no Recife. Atualmente, vive em São Paulo.
Trabalhou por 14 anos no jornal Folha de S.Paulo e já passou pela revista Veja. Aqui no Yahoo!, fala sobre o comportamento dos homens – que interessa sobretudo às mulheres.
Xico escreve sua coluna Modos de Macho & Modinhas de Fêmea todas às segundas-feiras.
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